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27 de agosto de 2025 - Notícias
Na memória de quem percorre a BR-030, há um nome que soa quase como um sussurro de respeito e medo: a Curva da Candonga. Entre as ladeiras que serpenteiam o sertão de Caetité, ela se ergueu por décadas como um ponto de incerteza, onde o asfalto parecia tramar contra os viajantes.
Carretas tombadas, carros retorcidos, histórias interrompidas… a Candonga se fez lendária não por sua beleza, mas pelo silêncio pesado que ficava depois das sirenes. Motoristas, mesmo os mais experientes, diminuíam a conversa quando o horizonte começava a anunciar sua proximidade. Era quase um ritual: firmar as mãos no volante, prender a respiração e esperar que a descida não transformasse viagem em tragédia.
Curiosamente, a fama da Candonga não se ergueu de um só acidente. Foi o acúmulo de muitos, repetidos ao longo dos anos, que a transformou em ponto de referência — não apenas no mapa, mas também na memória coletiva.
E, no entanto, como tantas histórias do nosso Brasil, a solução veio de forma quase banal. Décadas de acidentes, lamentos e manchetes foram vencidas por um gesto simples: um quebra-molas. Sim, um pedaço de concreto atravessado no asfalto, obrigando os veículos a desacelerar antes da curva traiçoeira. O que parecia insolúvel revelou-se contornável. O monstro da estrada, enfim, perdeu parte de sua força com um gesto que poderia ter sido feito anos atrás.
Ainda assim, é preciso reconhecer: a Candonga pede mais. O quebra-molas reduziu drasticamente os acidentes, mas não basta. Uma curva que já escreveu tantas páginas tristes na história de Caetité merece obras mais completas — sinalização reforçada, melhorias na pavimentação, até mesmo uma readequação do traçado. É como se a estrada pedisse cuidado, lembrando que a vida de quem passa por ali não pode depender apenas da sorte ou da memória de um medo antigo.
Hoje, a Candonga ainda está lá, curvada como sempre, guardando o peso de sua própria lenda. Mas já não impõe o mesmo terror. Os mais novos talvez nunca saibam do frio na espinha que ela causava. Para os antigos, porém, a curva permanece como lembrança — e talvez como lição. Às vezes, o que parece destino implacável é apenas descuido humano.
Agora mais calma, continua a ser passagem. Mas, no fundo, sempre será um ponto de encontro entre medo e respeito, história e asfalto.
Curva da Condonga: a mítica curva de Caetité
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